Carnaval em cenários de fantasia

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Sempre busco “sincronizar” as estações do ano do meu cenário de fantasia medieval com a estação em que estamos. Sabe como é… fica um pouco complicado ter certa imersão numa narrativa sobre neve, geada e frio extremo com um calor insuportável do verão do nosso amado Brasil.

Então, decidi que estamos no começo do verão em Gortávia e a cena inicial da última aventura retrata um festival que celebra o fim das noites longas e dos perrengues do inverno. Esse festival me pareceu interessante para colocar os personagens em uma situação de normalidade e então inserir algumas guildas novas e o novo grande inimigo da campanha.

No entanto, ao invés de ser mais um festival da colheita, onde as pessoas fazem a última refeição decente do ano, me perguntei como seria sincronizar as coisas mais uma vez,  com algo que estamos celebrando  no nosso mundinho real. Assim elaborei que, em Gortávia, a passagem inexata entre o inverno rigoroso e o verão escaldante seria celebrado à moda carnavalesca.

Me restou a pergunta: como criar uma cena em uma aventurade RPG usando o carnaval como tema?

Primeiro, precisei dar um significado ao festival. Nada muito acadêmico, no entanto. A passagem das estações são ótimas inspirações e como estamos utilizando o carnaval como temática, vamos ver o que a Wikipedia diz sobre o que diabos o Carnaval significou para nossos antepassados:

O Carnaval é um festival Cristão Ocidental que ocorre antes da Quaresma. Os eventos mais importantes ocorrem durante Fevereiro ou no começo de Março. O Carnaval é tipicamente envolto de celebrações públicas ou paradas que combinam elementos de circo, máscara e festas de rua.

Os Europeus (e esta distinção é importante, por conta das estações do ano) encaravam o Carnaval como um ritual de passagem das trevas à luz, do inverno ao verão: uma celebração da fertilidade, sendo normalmente o primeiro festival de primavera do ano. Do ponto de vista antropológico, o carnaval é um ritual de regressão, onde os papéis sociais são invertidos e as normas de comportamento são temporariamente suspensos.

O carnaval é uma ótima oportunidade para temperar as coisas e então apresentar a verdadeira trama da aventura – pegando os jogadores de surpresa.

Primeiro, apresente o carnaval dentro da cena inicial da sessão de jogo: descreva fantasias estranhas, música barulhenta, um pouco de caos e desordem moderada. Inspire-se por apresentações antigas, grupos de circo antigo, com suas acrobacias exóticas e torneios caóticos… todos típicos dos festivos europeus mais simbólicos (como o Sar Sartigilia ou o Carnaval Espanhol).

Depois, pense em algum evento disruptivo que é possibilitado ou facilitado pelo festival em si. Esse será o problema a ser resolvido pelos personagens, o objetivo da aventura – mas que surgiu graças ao festival.

Pense em como a origem do problema (seja um evento ou um oponente conhecido) pode se iniciar por conta do carnaval. Nesse quesito, o céu é o limite e você pode usar o carnaval de infinitas formas para alavancar a sua trama:

  • Guildas agem nas sombras: aproveitando da distração das festas que tomam as ruas, as guildas de ladrões (ou dos assassinos) aproveitam a oportunidade para colocar em prática seus planos mais ousados. Isso significa tomar de assalto algum local, roubar algum item extremamente valioso ou vitimar alguma personalidade. Seja lá o que for, certifique-se de colocar os PJs entre o que os bandidos e o que eles querem.
  • Foliões Monstruosos: o que aconteceria se algumas das criaturas (como orcs, goblins, vampiros e duendes) decidissem aproveitar a oportunidade de que todos estão misturados para caminhar entre os mundanos? E se a motivação por trás disso esconder algo realmente maligno? Talvez eles queiram amaldiçoar a cidade, ou quem sabem precisam recuperar algo que entendem como seu, como um item mágico escondido na torre do feiticeiro da cidade. Ou simplesmente é temporada de caça e as criaturas monstruosas estão sedentas por sangue fresco…
  • Intriga na Corte: os nobres também possuem suas festas, ainda que reservadas às propriedades do palácio. Imagine se algo funesto acontecesse ali, como um assassinato (ou uma tentativa frustrada), ou um ato de traição ou espionagem. Quem sabe a festa no palácio se torna uma chance para extrair informações dos vassalos do Duque anfitrião? A festa é uma oportunidade e tanto, afinal não é sempre que se recebe um convite tão aberto para adentrar nos domínios de seus rivais políticos.
  • A Dança da Morte: e se o carnaval coordenado por um sacerdote esconder um ritual para trazer algum ser de outro plano de existência, como um gênio maligno ou demônio dos planos inferiores. Somente os deuses sabem qual o papel dos foliões neste ritual. Apenas cultistas em um delírio coletivo? Ou sacrifícios para a criatura que está por vir?