Evolução de Personagens

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Antes de começar a opinar sobre como eu enxergo a evolução de personagens no RPG em geral, eu gostaria de dizer que estas opiniões são estranhas. Elas divergem da maioria das pessoas e da maioria dos jogos. Por isso, se você discordar do que ver aqui, tudo bem. Esta não foi a intenção principal, mas vou entender. Como sempre dizemos: “O problema sou EU”.

Vou escrever sobre como eu uso a técnica de Evolução dos Aspectos do Fate em meus jogos. Não porque Fate me fez pensar assim, mas porque o Fate me serviu para aplicar um conceito que vem de encontro ao que eu acho ideal sobre este assunto. Eu também não espero que você, jogador e narrador de Fate, concorde comigo ou use o que eu vou apresentar. Como eu disse, minhas opiniões são estranhas.

Então, vamos lá…

Evolução e Nível de Poder são “farsas” simulacionistas

Quando eu jogo D&D (eu adoro D&D, ok?), meu guerreiro de primeiro nível irá penar para matar Kobolds e Goblins. Isso é especialmente verdade no D&D Next, onde o primeiro nível é extremamente letal.

Então eu subo de nível. Legal! Meu guerreiro ganha mais PVs, ele irá atacar melhor, terá mais habilidades e Kobolds e Goblins já não são mais tão desafiadores assim (ao menos que o DM use a cabeça – mas vamos usar os números frios por enquanto). Então eu passo a enfrentar Orcs e Hobgoblins. Quando aumento de nível deixo os Orcs para trás e passo a enfrentar outras criaturas como Medusas, Hidras, Dragões e Demônios.

De uma maneira ou de outra, meu guerreiro SEMPRE estará em maus lençóis. Pois ele evoluiu e agora pode enfrentar monstros terríveis e se dá ao luxo de dispensar oponentes mais fracos. O DM nem se preza mais a colocá-los, afinal existe um ótimo acervo de criaturas no Monster Manual que SEMPRE se adequará ao nível de poder do meu personagem.

Então inventaram uma “escada” onde seu personagem sobe e cada degrau possui um acervo de obstáculos e inimigos. O narrador pode colocar oponentes do degrau de baixo para passar uma falsa sensação de confiança ou pode pegar os oponentes do degrau de cima para tornar as coisas mais desafiadora.

Esta mecânica é inerente à maioria dos jogos de RPG, seja por níveis ou pontos, existe um “poder equivalente” medido por meio de modificadores de ataque, defesa e dano.

Os modificadores inflados, servem para relativizar tudo. É uma maneira simples de dizer que seu personagem de primeiro nível (ou de 150 pontos) NUNCA poderá enfrentar um Dragrão Ancião.

Agora responda com honestidade: você precisa de um sistema de evolução para dizer que enfrentar um dragão ancião é CEDO DEMAIS?

Pois eu digo que você não precisa disso para dar ao seu grupo uma sensação de evolução dos personagens.

Escopo e escala subjetiva

Lembra da escada de evolução que eu mencionei acima? E se eu te dissesse que ao invés de uma escada poderíamos colocar o personagem em uma esteira de academia? Matematicamente seus números não mudam muito, mas ele será relativamente mais poderoso por atuar em cenas de escopos bem diferentes daquelas apresentadas na primeira aventura.

Pegue o Fate Acelerado e vamos fazer dois personagens aqui. Vou mencionar duas frases e eu quero que você diga para si mesmo o que imaginou antes de prosseguir. Pare de pensar um pouco no jogo e pense num livro. Vou usar os adjetivos e omitir os números para você entender o que eu quero dizer:

Exemplo 1: “Argoth é um Bárbaro Gigante, Filho dos Colossais Deuses do Gelo que usa uma abordagem Forte de maneira Ótima”

O que você imagina quando eu digo que Argoth entrou em um templo demoníaco em ruínas e combateu seus inimigos utilizando sua Ótima Força para resgatar uma antiga relíquia?

Bem, eu imagino hordas de monstros, criaturas gigantes poderosas, estátuas de ídolos gigantes tomando vida e Argoth lutando bravamente. Vou além e digo que esta relíquia deve ser bem importante para alguem como Argoth se importar.

Exemplo 2: “Pedro é um Aventureiro de Primeira Viagem, Adolescente da Terra que entrou em um guarda roupa e passou para um outro mundo fantástico, e usa uma abordagem Forte de maneira Ótima”.

Agora imagine que inimigos Pedro irá enfrentar? O que um adolescente que frequentou aulas de educação física pode enfrentar em um mundo de fantasia? Mais do que isso, coloque Argoth e Pedro lado a lado. Ambos foram descritos de forma a possuírem uma Ótima Força.

Qual dos dois é mais forte?

É ÓBVIO que Argoth é mais forte. Mas eu não precisei de um número para te dizer isso. Na verdade, eu nem mencionei a altura exata do primeiro. Num livro, os dois personagens desempenhariam papéis distintos na trama. Um iria cuidar de criaturas abissais enquanto que o outro iria convencer condes a se juntarem a uma causa esquecida e teria que passar por muitas provações para ser aceito.

Isso porque ambos operam em escopos diferentes e se você colocá-los lado a lado, Argoth irá trucidar Pedro num piscar de olhos. Jogar os dados é uma perda de tempo. É tão idiota quanto jogar “um guerreiro de primeiro nível de Força 14 contra um Dragão Ancião Lich de Nível de Desafio 17, com 5 habilidades especiais, 3 vezes ao dia”.

A única razão para você colocar personagens de poderes diferentes é ver como o mais fraco usa da astúcia e explora as fraquezas do outro sem recorrer a um conflito direto. Se o GM colocar na mesa que um conflito direto está fora de questão, os jogadores são obrigados a buscarem outras soluções.

Afinal, não seria um absurdo dizer que a Viúva Negra venceu Loki em um conflito (mas não um combate, isso seria idiota!) no filme “Vingadores”.

A questão é: como evidenciar o escopo de cada um?

Evolução de Aspectos

Eu não uso a evolução numérica para medir o nível de poder absoluto do personagem. Não me apego aos números. Claro, eles ainda irão aumentar de tempos em tempos. Em Fate esse aumento ocorre em Etapas específicas, mas não é o foco principal do sistema de evolução do jogo.

E é aí que mora o problema: a maioria dos jogadores que vieram de outros sistemas tendem a achar isso um absurdo ou, no mínimo estranho – “Como assim, aumentar meus stats é secundário para a evolução do meu personagem?”.

Fate emula a ficção. O sistema possui um pilar central regido pelos aspectos, pois eles estabelecem fatos sobre o seu personagem e definem que papel ele pode desempenhar na história.

Isso é fundamental esclarecer para o seu grupo, para que os jogadores se sintam premiados quando for permitido renomear os Aspectos do seu personagem.

Ele não vai te dar todos os números certinhos, mesmo que exista uma escada numérica. Ao invés disso ele vai permitir que você abra o leque de opções sobre como você pode usar seus pontos de destino na história.

Quanto mais bem escrito e polido for um dos seus aspectos, melhor será o seu personagem para as coisas que ele foi pensado. Afinal, não vamos esquecer que você ganha mais pontos de destino a medida que evolui. Então além de melhorar o escopo das ações do seu personagem, você poderá usar mais vezes este conceito na aventura.

Mudar o Aspecto Principal (Conceito) do seu personagem então é um aoportunidade de ouro que, no caso de Pedro, poderá aproximá-lo de Argoth e quem sabe um dia, enfrentá-lo.

Por isso, quando jogar Fate ou jogos semelhantes, não se sinta frustrado por não conseguir modificadores maiores em suas perícias ou abordagens. Não ache que seu personagem está estagnado por conta disso.

Existe uma série de ações que aspectos “destravam” e mudanças (mesmo que sutis) nos aspectos podem mudar a cara do seu personagem. Quando você menos esperar irá usar seus pontos de destino para coisas que não imaginava antes. Esta é a evolução do seu personagem em Fate.

Então, quando estiver jogando, tome um cuidado especial na hora que lhe for oferecida a oportunidade de renomear um aspecto do seu personagem. Pense para que direção você quer seguir com ele e vá polindo seus aspectos para se aproximar disso. Faça o Narrador perceber essas mudanças e sugira novas formas de usar seus pontos de destino. Muitas vezes, mudanças sutis (como colocar uma patente militar recém conquistada na última aventura) irá mudar completamente como o mundo enxerga o seu personagem.