Opinião: DMs Guild e a “nova” era d20

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Quando a Wizards of the Coast lançou a DMs Guild e o consequente SRD 5.0 que permite às editoras publicar material compatível com a incrível quinta edição do D&D, muita gente traçou um paralelo com a chamada “era d20”. Uma comparação justa e natural, mas eu não posso deixar de achar que algumas coisas estão exagerando. Ao mesmo tempo, não tenho bola de cristal e nada do que escrever aqui é verdade absoluta ou uma profecia baseada em qualquer coisa que não a visão de um consumidor de jogos de RPG.

Mesmo assim, a internet é algo maravilhoso e permite dar voz a qualquer mané e eu não poderia ficar de fora. Gostaria de dar meus dois centavos sobre os impactos que um D&D Next aberto trará ao mercado.

1. Nunca houve o fim da era d20

Certo, o selo foi pro brejo faz tempo, mas as “crias do d20” nunca deixaram de dominar o mercado americano.

Prova disso é a dominação da linha Pathfinder que chegou a incomodar a supremacia da marca D&D, oferecendo um conjunto de regras que não seria todo de mau gosto dizer ser uma versão “3.75” sendo “mais D&D que o próprio D&D”.

O movimento da Renascença Old School (OSR) também se deu graças ao SRD 3.5 e o licenciamento aberto. Títulos como Labyrinth Lord, Sword & Wizardry, Lamentations of the Flame Princess e Dungeon Crawl Classics inovaram em cima de uma receita antiga que remete às primeiras edições do D&D.

Mutants & Masterminds ofereceu um sistema que pode ser usado não somente para super-heróis, mas também “para todas as outras coisas que o D&D não cobre”.

Estes são os títulos que foram ganhando identidade própria ao longo dos anos, mas são todos provenientes da ideia original do selo d20. Eles são velhos conhecidos e estão quase sempre figurando na lista dos mais jogados. Então quando dissemos que “O D&D voltou para a OGL” existe um (justificado) rebuliço do mercado, mas vamos também nos perguntar até que ponto a WotC não foi obrigada a assumir este formato.

As pessoas querem flexibilidade e diversidade. Uma empresa pode oferecer tudo isso sozinha? Dificilmente, por isso o licenciamento aberto é importante para angariar novas ideias e promover a nata da enxurrada de lançamentos que está por vir. A era d20 nunca deixou de existir e dominou o seu próprio criador e agora as coisas estão, finalmente, sendo ajustadas.

2. Alguém lembra do Call of Cthullhu d20?

Não, ninguém. Isso porque o livro era uma merda. Ah sim, ele era bonito, bem editado e até bem escrito mas não era um jogo que mereceria o título “Call of Cthullhu”. Eu não acho que a WotC ou a Chaosium iria lançar algo tão ruim de propósito. Mas o fato é que a mecânica do D&D está longe de ser universal, independente da empolgação e dos dólares que uma ideia cretina possa gerar a curto prazo. D&D nunca possuiu um “Core” unificado para todos os gêneros porque ele é, ora bolas, um jogo de fantasia. Para todo o resto, muita coisa precisa ser repensada e reescrita.

Houve uma época que o mercado tentou enfiar goela abaixo “todo o resto d20”. Não estou falando dos títulos execráveis de editoras pequenas (vamos esquece-las, certo?). Estou falando das editoras grandes forçando a barra pra cima dos jogadores e nos convencendo que Legend of the 5 Rings, Call of Cthullhu, Star Wars e Conan funcionavam com o D&D 3.5.

Isso não era verdade e agora todos sabem disso.

Eu duvido que haverá esta super exposição do sistema. Sei que corro o risco de estar errado mas eu acho que as editoras e os estúdios irão usar o SRD 5.0 para coisas muito próximas ao D&D. Eu vejo sim, uma enxurada de títulos mas todos eles visando serem mais D&D que qualquer outra coisa.

Os cenários de peso não irão ganhar versões “Next 20” ou coisa assim. Eu espero que não, porque isso nunca deu certo antes. Portanto a ideia de que o SRD 5.0 será o único no mercado de RPG não está sendo cogitado.

Existe espaço para muitos sistemas no mercado americano e sempre existe a parcela de jogadores que desejam coisas diferentes. Graças à 4a edição as pessoas perceberam que D&D não é tão legal assim. Não que seja ruim, mas as outras opções estão ali para promover estilos diferenciados de jogos.

Então o jogador que adora diversidade não tem nada a temer. Os títulos diversificados e diferentões continuarão a vir. Coisas bacanas como Fate, Dungeon Crawl Classics, o novo Star Wars e Savage Worlds continuarão na prateleira.

3. E quem perde?

Vou extrapolar de vez aqui e especular dois fatores que a nova onda do D&D aberto pode influenciar: Pathfinder e Financiamentos Coletivos.

A Paizo vai ter que oferecer muita coisa atraente se quiser manter a linha 3.75 viva no mercado. Vai ser muito interessante ver como ela vai responder a tudo isso: ela irá inovar com títulos incrivelmente bons? Irá lançar um novo Pathfinder com base no SRD 5.0? Irá se voltar a escrever para o D&D?

Seja lá o que for, para mim está claro que não há mais espaço para o livro de regras do Pathfinder. D&D possui um apelo muito forte entre os jogadores e independente do que o livrão de regras da Paizo tem a oferecer, a marca D&D irá massacrar a necessidade do livro de regras do Pathfinder em um ano e meio de lançamentos. A Paizo faz ótimos lançamentos (talvez os melhores do gênero) e fico muito curioso se ela tomará decisões diferentes agora.

Já os financiamentos coletivos eu espero nada menos que uma enxurrada de projetos usando a OGL e o SRD 5.0 e nós consumidores temos que tomar muito cuidado com isso.

Por que?

Financiamento Coletivo não é uma loja on-line e muita gente cede a grana com esta expectativa. Você está comprando uma ideia, o que é bem diferente de comprar um livro. É um investimento com um certo grau de risco. Tanto aqui quanto lá fora, projetos sofrem atrasos, ou até mesmo riscos de fracassos completos. Eu me preocupo com as “editoras abutres” infestarem o Kickstarter, Catarse e outras plataformas com projetos “5.0” em demasia.

Aqui mora o perigo: muitas promessas e pouca qualidade não irá afetar o D&D em si nem a DMs Guild. Ao invés disso, irá manchar a imagem da filosofia do financiamento coletivo no mercado do RPG, prejudicando boas editoras que dependem disso para viabilizar seus livros e não estou falando de livros “D&D Next”.

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Portanto, se uma editora depende de financiamento coletivo, eu pensaria em um plano B para desvincular a imagem do que há de pior em uma vindoura enxurrada de projetos furados “Next”.

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Fora isso, acho que este é um lançamento bem-vindo ao D&D. É um presentão da editora para os fãs. Agora a Hasbro está interessada na marca D&D em outras plataformas (cinema e video-games). Nada melhor que ter a coisa toda aberta no ramo dos RPGs de mesa para torná-lo presente enquanto os fãs quiserem.