A Essência do RPG

Captura_de_telaSe você ler o prefácio do Módulo Básico do Nereus, verá que eu busquei capturar algo que eu chamei de “essência do RPG”. Não é segredo para o leitor mais assíduo que eu já havia esgotado minha vontade de jogar, o desânimo foi tanto que eu quase abandonei o hobby.

Agora, encontrei paz dentro do RPG, jogo uma gama de ambientações e aventuras, escrevo sobre tudo isso e estou produzindo meu primeiro suplemento depois de anos de tentativa. Tudo isso ocorreu graças ao fato de eu ter encontrado um jogo chamado Fate Acelerado, que em suas 30 ou 40 páginas ofereceu um jogo enxuto e completo que me permitiu criar um monte de coisas com pessoas que não conheciam muito bem o jogo. Fate foi, por muito tempo, um “estranho entre os estranhos” e isso ajudou muito a quebrar barreiras e angariar pessoas que curtem coisas que eu curto.

O que você deve fazer para encontrar a paz dentro do hobby que amamos tanto?

Neste artigo busco responder esta pergunta e convido todos a se questionarem quais são as expectativas pessoais de cada um (e qual é o próximo passo para achar o seu jogo favorito).

1. Escolha as pessoas certas para jogar

Não adianta você ter “o sistema ideal” se as pessoas que estão na sua mesa não servem para jogar aquilo que você quer. Eu sei que pode parecer arrogante, mas é mesmo: se você tem uma proposta de jogo muito clara, não deveria tolerar metade das discussões sobre regras que ocorrem em boa parte das mesas.

Acerte com as pessoas antes do jogo começar que gostos vocês tem em comum. Eu não estou falando de regras aqui: se você me convidar para jogar D&D Next ou Pathfinder na sua mesa eu vou querer saber algumas coisas: “você pode colocar elementos de Sword & Sorcery?” ou “como a magia vai funcionar no seu jogo?” ou ainda “qual o papel das miniaturas no seu jogo?”. Esses são apenas algumas perguntas que vão me dar uma boa noção de como você, Mestre, irá conduzir o jogo. Dizer que sistema de jogo você vai utilizar é apenas uma parte da equação. O uso delas é o grupo quem determina e isso pode ser bom ou ruim, dependendo da preferência de cada um.

Concessões podem ser feitas, mas é importante que tudo que não for negociável seja esclarecido logo de cara antes do jogo começar para evitar discussões de regulamentos durante a partida.

2. Use um sistema que não te atrapalhe

Existem sistemas para todos os gostos. Se você gosta da ideia de simular a física do universo imaginário, GURPS pode ser uma boa escolha. Caso você prefira abstrações de um gênero específico existem outros jogos como D&D e Call of Cthullhu e assim por diante. Jogos que possuem outras preocupações, como o Fate que está mais preocupado com o drama do que realismo ou 3D&T em emular um estilo heróico típico dos animes e mangás podem cair como uma luva no gosto do grupo.

O GM possui as regras, e é ele quem determina o que é melhor para a história. Então, regras caseiras devem ser colocadas em prática para fazer um “ajuste fino” para que as regras atendam a demanda do grupo. NÃO fazer isso é apostar todas as suas fichas na mão de outra pessoa. Isso pode parecer bom no começo mas, da minha experiência, nunca vi um jogo acertar de primeira o que meu grupo queria. É uma questão de tempo até que você aprenda a mexer no sistema.

O melhor sistema é aquele que o grupo não percebe que está usando. A história flui e os dados supreendem, assustam e dão rumos inesperados, mas nunca atrapalham.

3. Não deixe a “comunidade” te influenciar

Essa é a minha recomendação favorita. Você só precisa entrar em consenso com duas ou três pessoas sobre o que deve ou não existir na sua mesa. E essas pessoas são as que estão jogando com você E MAIS NINGUÉM!

Não caia na armadilha de sair por aí perguntando sobre um jogo que você gosta. As respostas serão sempre escrotas. Quem realmente pensa como você dificilmente vai comentar algo, então você deixa o seu comentário à mercê de um monte de hienas que sequer jogam RPG regularmente. Se existissem tantas pessoas engajadas em jogar os sistemas da vez, a Devir seria rica.

Hoje em dia existem diversas formas acessíveis de estabelecer um primeiro contato com um determinado jogo. São quickstarts e versões “starter” do jogo, normalmente a preços acessíveis (isso quando não são disponibilizados na internet de graça). Absorva este material inicial e jogue, jogue e jogue.

Se você JOGOU, GOSTOU e seu grupo SE DIVERTIU a ponto de querer JOGAR DE NOVO, tenho uma mensagem pra você: a opinião alheia pouco importa agora. Você já tem um jogo nas mãos e nada nem ninguém vai dizer o que é certo ou errado.Boa parte dos abutres do Facebook nem estão jogando de fato.

A dita comunidade de jogadores deveria se enxergar: se dizem ser tão inteligentes e sofisticados, mas não conseguem discutir temas universais do hobby: o uso criativo de plots, como improvisar numa partida, delinear um gênero, codificar tropos,  como criar cenas interessantes e personagens marcantes. Ao invés disso, todos pagam de pretensos especialistas de sistema X ou Y, discutindo minúcias e o “jeito certo” de jogar tal RPG, normalmente atacando (quase nunca argumentando) opiniões diferentes sem sequer ouvir a opinião dos outros.

Fiquem longe dessas pessoas e sejam felizes.

4. Crie material de jogo

Não estou falando, necessariamente, de suplementos, livros ou PDFs na internet. Se o grupo todo conseguir produzir um caderno de anotações com as boas ideias e momentos marcantes já está de bom tamanho. Apenas gerem algum material de vocês para vocês. É um registro informal daquilo que você achou mais legal no jogo – tanto em termos de história quanto de regras improvisadas.

Se o grupo possuir um ilustrador, melhor ainda. Existe sempre aquele que curte escrever alguma coisa, o cartógrafo e quem organize tudo isso em uma pasta ou blog. Percebem como tudo isso denota trabalho em equipe. Essa é uma maneira da experiência de trabalho em equipe dos personagens se estenda para a realidade. RPG é um hobby, faça dele o seu favorito.

5. Jogue outros gêneros

Se você joga D&D, saiba que o DMG tem um monte de regras para jogar aventuras modernas. Armas de fogo, futuristas, espaço naves. Se o seu sistema não prover isso, tente outras regras de vez em quando.

Saia um pouco da novela de cavalaria. Experimente a violência crua do cyberpunk, ou a tensão de um jogo de horror nos Estados Unidos da década de 70 (sobreviva sem telefones celulares ou internet em cada esquina, amigos).

Tem dúvidas de como fazer isso? Busque seu gênero favorito no TV Tropes ou Wikipedia e entenda a “receita básica” do gênero e tente uma sessão de jogo.

Uma coisa que eu faço é intercalar minha campanha principal com aventuras one-shot ou campanhas menores (de 3 ou 4 aventuras). Um sábado é o meu cenário de Sword & Sorcery Carcássia e o outro é alguma outra coisa. Como eu jogo Fate, não preciso me preocupar em aprender um novo conjunto de regras, mas mesmo se tivesse, iria pegar um sistema simples e jogar alguma coisa diferente só pra sair da rotina.