Opinião: e o GURPS?

GURPS é provavelmente um dos sistemas mais consistentes já criados. Por muito tempo ele foi o meu RPG primário para boa parte das aventuras e foi nele quem mergulhei em gêneros que nunca sonhei em conhecer: cyberpunk, ficção científica ou pulp.

Este sistema preencheu por muito tempo aqueles que não vislumbravam a possibilidade de ter um Traveller ou um Star Wars RPG. Seus suplementos da terceira edição são, na minha opinião, a melhor influência que um escritor de jogos pode ter.

Ótimo. Essa semana vimos mais um erro da Devir, desta vez perdoável para nós jogadores mas crítico para a Steve Jackson Games – a ponto de obrigar a editora brasileira recolher os exemplares da nova tiragem do Módulo Básico. Um golpe duro para quem apostava em ver GURPS a venda.

Não vou discutir o mérito das editoras: enquanto jogador eu estou cagando e andando para direitos autorais de 2010 a 2014. Foda-se. Mas tal episódio me fez refletir qual seria o futuro do GURPS e porque eu me importo com isso.

O DESTINO DO GURPS

Nos EUA o GURPS vai continuar onde está – ele terá seus lançamentos em PDF e poucos livros de poucas páginas. Esta estagnação é um incômodo para quem é ávido por lançamentos, mas francamente, com todo aquele catálogo da terceira edição disponível em PDF, é fácil dizer que existe material para toda a vida e mais um pouco.

Então GURPS não irá morrer enquanto a e23 (loja de ebooks da SJGames) existir. Pois os melhores materiais do sistema (e talvez do hobby como um todo) já estão lá. Esse é o legado do sistema e o pessoal da SJ Games não possui mais interesse para superar o que fizeram até então.

A digitalização do catálogo da terceira edição terminou de estagnar o GURPS. Francamente, a SJ Games não tem apresentado nada muuuuito diferente do que já ofereceu no passado. Mesmo assim, seus suplementos são excelentes, principalmente a Pyramid que me surpreendeu em suas edições digitais mais recentes. A qualidade do material é boa e podemos ver como o sistema é consistente e muito bem projetado.

Ou seja: GURPS está muito bem em termos de qualidade.

A FALTA DE INOVAÇÃO

Por melhores que sejam, não há inovação no conteúdo e nem parece estar havendo um esforço muito grande por parte dos caras. Vamos pegar os lançamentos em destaque: Mars Attack e GURPS Zombies. O primeiro é uma adaptação de um filme de 1996. O segundo é um sub-gênero. Nada muito novo, certo? Ambos os temas foram cobertos por GURPS Horror ou GURPS Atomic Horror.

Os lançamentos são em PDF e cópias físicas novinhas, mas é um pouco contraditório a SJ Games me acostumar a comprar PDFs e esperar que eu não compare minhas opções na e23 com o que eles estão produzindo. Então fica complicado  dar apoio a coisas “novas” se eu acho que não existem grandes diferenças para esses lançamentos com algo que eu poderia fazer em casa com estes suplementos antigos, com menos de 8 dólares cada.

LICENÇAS & FRANQUIAS

Bem, eu já fui defensor de que GURPS deveria ser de licença aberta (como a OGL) para promover a inovação. Acredito que os caras que fazem coisas excelentes com Fate, Savage Worlds e Cypher System poderiam se beneficiar com o GURPS.

Mas isso pode ter dois defechos: um sucesso como o Fate ou um final menos feliz como é o caso do Open D6 da WEG- restrito aos fãs.

Talvez seja tarde para um GURPS OGL, mas eu acho que em algum momento a SJ Games perdeu uma chance de expandir a marca que talvez desse vitalidade e sangue novo para a linha.

Pensando por este lado, a SJ Games tomou algumas decisões superprotetoras com GURPS resultando em coisas como desentendimento no lançamento do jogo Fallout, uma das franquias mais conhecidas nos consoles de video-game mundo afora. Mesmo Cyberpunk 2020 teve mais cuidado e licenciou o jogo para a CD Projekt Red. Pelos deuses até um RPG de mesa do Witcher vai sair dessa negociação usando o Fuzion.

Se até um RPG abandonado como o Fuzion pode ganhar vida com um trato desses, por que a SJ Games estaria tão relutante em ceder um pouco sobre um produto que não é mais prioridade para eles?

Qualidade? Ok, então não fiquem tão surpresos se eu preferir ficar com os melhores suplementos da história do jogo ao invés de uma adaptação de Mars Attack.

E NO BRASIL?

Bom, no Brasil o GURPS está sendo jogado, mas sua editora está morta. Não em termos de comunidade, claro, existem centenas deles para conversar. Mas se eu começar agora um curso de inglês, eu aprendo a língua e compro 15 suplementos importados antes do lançamento de qualquer coisa.

Se GURPS fosse licenciado abertamente, talvez um lançamento independente usando ele como engine seria interessante. Eu acho que muita gente poderia se beneficiar com isso, de ambos os lados e talvez GURPS pudesse ter uma sobrevida em um mercado restrito como o nosso.

Mas estas ideias morrem aqui, na imaginação de um fã, que achou conforto em outros sistemas com uma diversidade maior de interessados. Uma pena, pois eu acho GURPS muito loco e eu creio que ele deveria ser maior do que é…