Como Wil Wheaton poderá desmistificar o RPG de mesa

Antes de ler esse artigo, veja esse vídeo, em inglês:

Assistiu? Ótimo. Percebeu que Wil Wheaton vai transmitir sua campanha de RPG? Legal. Então acho que posso começar.

Para quem não sabe, sou cartógrafo. Quando o Google Maps e Google Earth caiu no gosto do público geral (os famosos end users), surgiram os mensageiros do apocalipse disseram que isso iria “banalizar” a cartografia e que esse seria o fim do profissional de mapas.

O tempo passou e provou o contrário: graças ao Google Maps, a geolocalização se tornou uma demanda de mercado em novos setores e graças a isso, acho que eu tenho um bom emprego.

Ironicamente, tal evolução não veio de uma empresa de mapas. A Google era uma empresa de buscas e serviços on-line, ninguém imaginaria que ela iria ditar como Sistemas de Informação Geográfica iriam funcionar no começo do século XXI.

Mas no fim deu tudo certo! Não foi igual ao que os profissionais que regiam o “status quo” queriam, mas saiu bem melhor que eu (na época estudante) poderia sequer sonhar. Obrigado Google.

Tá… e o que isso tem a ver com RPG?

Bem, ouço a mesma coisa com o RPG e a internet: com os MMORPGs, os RPGs de mesas iam cair no vórtice mortal! Profissionais e algumas editoras espernearam. O apocalipse foi anunciado.A crise do RPG, a guerra de edições do D&D, houveram as picuinhas entre filhos de editores e os “grandes” nomes do RPG nacional

Mas então o tempo passou e testemunhei uma mudança. Mas, assim como na cartografia, a evolução veio por conta de outros tipos de profissionais: vloggers e podcasters.

Os profissionais sem rumo

As editoras tentaram compreender o público RPGista, mas vamos ser francos: poucas são as editoras que sabem gerenciar o novo público. A renovação foi um desafio e tanto até mesmo para os grandes: a Wizards tentou dedicar a quarta edição inteira remodelando o seu produto para algo menos estranho para a nova geração – imitando o look and feel de MMORPGs.

O que nenhuma delas entendeu, no meu ver, é que o RPG e videogames não são excludentes. Eu posso continuar a jogar meu RPG de mesa e jogar meus jogos de videogame no Steam. Em épocas de prosperidade, irei gastar meu dinheiro nos dois. Em períodos de vacas magras, os dois setores irão sofrer e compete às empresas administrarem isso, não o consumidor.

Então quando a crise acaba e o dinheiro sobra no fim do mês as pessoas vão voltar a gastar seu dinheiro.

E onde elas vão depositar seus dólares, euros e reais depois da crise? Naquilo que tiver maior apelo e melhor divulgação. Ditadores conseguiram chegar ao poder usando esta tática. Então é fácil lembrar de video games em tempos pós-crise, porque isso é intencional. Propaganda é a alma do negócio.

Meu alarde aqui é: se as editoras de RPG de mesa não sabem promover seus jogos mesmo com tantas facilidades, fica complicado culpar qualquer outro a não ser eles próprios.

Usando o RPG como mídia: a alavanca do hobby?

Wil Wheaton não é o primeiro a criar conteúdo na internet em cima do RPG.

Nem precisamos ir muito além de nossas próprias fronteiras. Amem ou odeiem, os caras do Jovem Nerd colocaram o RPG como pauta estratégica do conteúdo de seus podcasts e publicações. Eles souberam usar o RPG e criar um “universo Jovem Nerd”, o mundo de Ghanor já tem dois livros no seu catálogo. Não são livros de RPG propriamente dito, mas nasceram de um.

O guia ilustrado, na verdade, é um guia de campanha descritivo e um GM mais tarimbado saberá usar isso tranquilamente. Veja a festa de lançamento do livro:

O que eles fizeram, exatamente? Usaram o RPG como mídia para produzir conteúdo. Se for pra pensar em termos de custos é interessante. Em termos de comunicação é genial. Wheaton está “plugando” diretamente com a imaginação do seu público, bem no cerne do cérebro. Nem mesmo os video-games conseguem algo tão intimista!

Onde estão as editoras?

Agora eu me pergunto:

1. por que os reais interessados em ganhar dinheiro com RPG não se aproveitam disso? Por que não usam o RPG como uma mídia contemplativa antes de ser encarada como um entretenimento interativo.

2. Por que não usar um conteúdo on-line envolvente, com histórias (geradas pelo próprio produto) como porta de entrada para o hobby?

Vamos ser honestos aqui: no Brasil temos duas regras vigentes no mundo editorial de RPG:

  • treta entre editores
  • financiamento coletivo

O primeiro, vamos ser francos: uma hora o pedestal caí. Então nem vou chutar em cachorro morto.

O segundo é ótimo e viabilizou muita coisa, mas pode ser perigoso sem um plano de risco. Fred Hicks já deu a dica: Crowdfunding não é loja on-line.

As editoras brasileiras estão trilhando um caminho perigoso se não for feito com profissionalismo: basta um fiasco que muita coisa boa vai se inviabilizar por contar SOMENTE com esse tipo de coisa.

O projeto do Fate Core arrecadou meio milhão de dólares? Sim! Mas ele pediu só três mil dólares para lançar o livro básico. O que viesse ia ajudar a colocar mais títulos nas prateleiras, eles ponderaram MUITO antes de se lançar dessa forma. Nem tudo deu certo. Mas no fim, tudo saiu bem porque eles tinham um plano B.

Por isso, quem sabe as editoras não devessem aprender a lição que vloggers, bloggers e podcaster aprenderam? Que é possível mexer com o imaginário das pessoas usando o RPG. Ao menos existiria um exercício de construção de público e quem sabe isso tornaria os próprios financiamentos mais suaves?

Finalmente, termino o artigo com o pronunciamento do Presidente Nacional do RPG sobre o assunto:

Fui!