O futuro do passado do RPG

Howells,_Stops_of_Various_Quills,_1895_015_large_a

Saudações jogadores, GMs e simpatizantes!

Primeiramente, espero que o Natal de vocês tenha sido muito bom. Mesmo para os que não o celebram, um pouco de descanso no meio da semana não é pecado. E deixo meus votos para um 2014 ainda mais empolgante. Ou ainda, se você estiver na pior, que este ciclo se feche em breve e que 2014 seja uma oportunidade de começar de novo.

Ah sim! O livro de regras do meu sistema caseiro está a todo vapor. Ainda faltam os capítulos complementares sobre como o jogo é conduzido, mas boa parte da mêcanica está  pronta. Estou ficando empolgado com o resultado. Aguardem novidades em breve!

Indo ao assunto do post, eu, originalmente, gostaria de fazer uma restrospectiva do blog em 2013. Alguns comentários sobre o que fiz pelo RPG e vice-versa. Mas, no meio do texto, percebi que o RPG em geral vive um bom momento, independente de seu futuro e achei que alguns pitacos que eu tenho valem a pena de serem lidos. Portanto, é ao nosso tempo presente que gostaria de dedicar este post e fazer algumas reflexões.

O exercício é simples. Tenho alguns pensamentos anotados sobre o meu hobby favorito e gostaria de dedicar algumas poucas palavras a cada um deles. Nada muito polêmico, na verdade este é um post extremamente positivista! Se você se identifica (ou se opõe) a algum destes pensamentos, por favor, comente (sem palavrões, por favor)!

“De bem com o RPG!”

Eu cheguei a mencionar isso algumas vezes aqui no blog e também em alguns foruns de RPG: 2013 foi o ano em que eu fiz as pazes com o hobby depois de uma ausência efetiva de um ano e meio.

O motivo dessa reconciliação não veio sem mudanças e isso pode ser visto ao longo das postagens: deixei os sistemas tradicionais e simulacionistas para trás.

O próprio sistema Nereus era baseado em sistemas simulacionistas, como GURPS, Fuzion e Hero System. Ainda flertei com o old-school, iniciando uma campanha de AD&D 1E. Esta foi minha ultima investida no RPG tradicional. Depois disso sofri uma exaustão completa (como jogador mas principalmente como GM). Eu não podia ver um simples d20 sem passar nervoso e larguei tudo.

Eis que a solução veio por meio de sistemas mais narrativos, com a preocupação de se contar uma história, ao invés de mecânicas de simulação. Ou seja, ao invés de se preocupar em emular a física do universo imaginário, prefiro agora sistemas que emulam tipos de histórias e em que seu sistema é uma base para uma narrativa interativa. Exatamente como eu acho que o RPG tinha que ser. Sem combos, feats, listas enormes de perícias, armaduras, armas, magias e qualquer outra coisa parecida.

De todas as opções, sem dúvida Fate Accelerated Edition emergiu como o meu sistema favorito, tanto que a nova edição do Nereus tem ele como base.

Siegfried_rhinemaidens

“RPG é um hobby. Só um hobby”

A dica que eu vou explicar aqui foi uma lição para mim. Muito mais importante que a escolha de um sistema diâmico, foi a abordagem sobre ele que me fez crescer como GM. Por favor, não leve o RPG a sério demais. Invista na diversão do grupo. Não discuta regras, apenas foque naquilo que faz todos se empolgarem, rirem e que justifiquem as horas gastas em torno de uma mesa.

Jogue gêneros que lhe agradam, sem procurar uma verdade absoluta nem tampouco um jogo definitivo.

Basta uma passada rápida nas 40 ou 50 páginas do Fate Accelerated para notar empolgação dos autores em apresentar o jogo como algo simples, sem mistérios ou vacas sagradas. Os exemplos simples ali mostram muito mais potencial do que um cenário pronto que se leva a sério demais.

Encare o RPG como você encara um jogo de video-game. Ele precisa ser simples, descompromissado e ninguém deve se exaurir para divertir os outros. Se você não está se divertindo, reveja o motivo disso e procure novas opções de grupo ou sistema.

“Coloque suas ideias em prática e faça isso por você”

Meu único arrependimento foi não ter escrito mais sobre RPG. Claro, estou escrevendo um sistema genérico e uma versão condensada das suas regras já está on-line. Aliás, não posso reclamar quanto a isso: usei o Nereus! Uma Introdução aos Jogos de RPG para ensinar o hobby a uma pessoa e agora estou reestruturando Kollthar, meu cenário de fantasia e pretendo, em breve, começar uma nova campanha com um número fixo de aventuras (i.e.: um arco fechado com o compromisso de cinco aventuras, encare isso como um “RPG pré-pago”. Vou falar desta ideia em um post separado).

Mas acho que eu poderia ter colocado tudo isso em prática muito antes. Um pouco tarde para 2013, mas descobri que jogar aquilo que se escreve (seja um sistema ou ideia) dá um sentido para a coisa toda, sabe? Os posts seriam mais frequentes e um reflexo saudável do meu tempo livre.

O resultado seria posts com mais qualidade, compartilhando as novas ideias que brotam na minha mesa de jogo. Se você é um autor de jogos, faça este exercício. Procure colocar as suas próprias ideias em prática. Talvez, e esta é uma auto-crítica, meu blog tenha ficado academico ou teórico demais, mas com pouco valor agregado.

Pretendo mudar isso em 2014!

DSCF2316_Dante_perdu

“Cumpra as promessas que você fez a si mesmo”

Uma aventura bem jogada, com um desfecho incrível é uma recompensa que todo jogador ou GM de RPG deveria ter e perseguir. A satisfação de um jogo de sucesso cria um ciclo auto-sustentável. A satisfação do jogo anterior é o que alimenta a sessão seguinte. Isso entra mais ou menos no pensamento do “RPG é apenas um hobby”.

Tornando as coisas interessantes, o grupo vai se animar em ter um pouco de comprometimento para marcar a próxima partida. Afinal, por mais que RPG seja um hobby, pouquíssima coisa acontece quando você fica parado. Se você é um GM, na verdade, NADA acontece quando você cruza os braços.

O mesmo vale para os projetos que você planeja para o hobby: você vai criar um cenário de fantasia medieval? Um novo sistema genérico? Um arco de histórias baseado no seu autor favorito? Uma cidade cyberpunk? Mãos a obra! E não se iluda com aquele papo dos RPGs de 1990 onde toda a fase criativa está nas mãos do GM, os jogadores podem ser participativos e criarem um universo compartilhado.

Use ferramentas como Google Docs, Dropbox, Skype, Hangout e você terá uma mesa criativa. Ao final vocês terão um material próprio, pronto para jogar. Saia do formato “GM gera o universo e nós jogamos a aventura”. Leia RPGs novos, mesmo que você não abandone o seu sistema de sempre, pois existem inúmeras ideias em SRDs espalhados pela net que podem tornar o trabalho do GM mais solto.

Em especial procure os SRDs do Dungeon World e Fate Core no Google e leia as sessões para criação de aventuras. Tenho certeza que você irá enxergar o RPG como algo renovado e pronto para ser explorado nas suas mesas.

Guilherme “Taverneiro”

Ilustrações do post: Howard Pyle, Arthur Rackham, Gustave Doré