A perda de um aliado… Parte final

As palavras e lágrimas de Marnan pesavam em meu coração, mas não podia deixar um bandido fugir, mesmo que fosse um aliado. Independente de seu crime, o mesmo deveria pagar.

Enquanto ele gritava por sua liberdade, os guardas o alcançaram e o prenderam. Seus olhos perderam instantaneamente o brilho e a vontade de viver.

Após alguns minutos, chegam correndo Fhaonna e Jamamros vindos atrás de Marnan.

– Não sabia que esse infeliz poderia ser tão escorregadio. Conseguiu fugir de nós e todos os guardas no acampamento! – dizia Fhaonna com um tom de fúria e cansaço em sua voz. E pensar que em todo esse tempo confiamos em você, inclusive dividindo nosso teto com você.

As únicas palavras proferidas por Marnan nesse momento foram: – Eu sinto muito…

No mesmo momento em que ouvia essas palavras, Fhaonna desferiu um tapa em Marnan e falando:

– Cale a boca! Você não é mais um de nós. Não merece dirigir a palavra a nenhum de nós!

Jamamros com toda sua boa vontade acalmou Fhaonna pedindo uma chance para que Marnan pudesse se explicar. Fhaonna aceitou, mas desde que ele o fizesse naquele exato momento. Marnan nada fez além de permanecer em silêncio.

Confesso que poucas vezes vi Fhaonna com imensa fúria como nesse caso, nem nas piores das batalhas ela demonstrou tanto ódio e desprezo ao mesmo tempo.

– Levem logo esse rato traidor daqui, e apliquem-lhe a justiça de Marus. Acho que isso é até mais do que ele merece – disse Fhaonna retornando ao acampamento.

Eu e Jamamros nos olhamos sem trocar uma palavra, e vimos os guardas levarem nosso ex-companheiro de jornadas. Foi então que o capitão da guarda disse antes de partir:

– Ele deve ser julgado logo pelo seu crime. Aproveito para oferecer-lhes estadia na guarda de Marus, pela ajuda prestada na captura desse bandido e assim poderão aguardar o julgamento.

– Não sei se poderemos aceitar tal proposta, mas agradeço o convite. Vamos esperar que amanheça e que a luz do sol traga calma a esse acampamento, para que possamos decidir nossa jornada – disse ao chefe da guarda.

– Sem problemas. O convite está feito, e podem desfrutá-lo quando for necessário.

O chefe da guarda montou em seu cavalo, e partiu em direção a cidade. Jamamros e eu voltamos ao acampamento, e quando chegamos ao mesmo Fhaonna não se encontrava por lá. Ricros disse que Fhaonna foi caminhar sozinha pela floresta como sempre fazia quando tinha um problema.

Após 2 horas de um grande silêncio entre todos no acampamento, Fhaonna retorna e o silêncio parece ter duplicado, visto que não existia o mínimo clima entre nós para discutir o acontecido. Sendo assim, cada um se recolheu para seus afazeres e descanso, aguardando somente o raiar do dia para decidirmos nosso rumo.

Ao amanhecer, fizemos um fraco e frio desjejum, e confesso que o mais silencioso de todos, desde que esse grupo foi montado. Como sempre após o café nos preparávamos para partir, quando Fhaonna disse:

– Precisamos entrar em Marus para abastecer nossas provisões.  A próxima cidade fica a muitos dias de viagem, e não acredito que nossas provisões durem tanto.

E assim partimos com destino a Marus, a fim de comprarmos provisões para nossa longa jornada. Confesso que pensei em sugerir também a compra de um burro para carregar nosso equipamento, mas confesso que a idéia morreu logo após fitar Fhaonna por alguns instantes.

Chegamos a Marus após 2 horas de caminhada, e fomos em direção a praça central atrás de provisões, e verificamos que a antiga forca da cidade sofria reparos. Ao questionar um dos comerciantes, o mesmo falou que ela estava sendo reparada para o enforcamento do assassino do governante que ocorreria a tarde.

O comerciante disse que haviam decidido sem julgamento devido à revolta dos populares quando trouxeram o preso na noite anterior. Se não fosse a promessa de uma execução rápida, o mesmo teria sido linchado na noite anterior.

Confesso que fiquei um tanto quanto chocado com a notícia, por não saber até então a importância do governante naquela cidade. O comerciante disse que aquele governante era querido pelo apoio aos mais necessitados e todos praticamente na cidade gostavam dele.

Após terminarmos as compras, percebemos que Fhaonna havia sumido, e nem se encontrava nos arredores. Saímos pela praça do mercado a procura dela, mas sem sucesso.

Enquanto procuramos Fhaonna, percebemos a carroça que trazia Marnan para o enforcamento se aproximar. Era grande e quadrada, e estava coberta por um pano negro. As pessoas se amontoavam na praça para acompanhar o enforcamento. O povo gritava pedindo a morte do assassino.

Ficamos parados vendo a cena a distância, enquanto o carrasco se movia em direção a carroça. Quando o mesmo removeu o pano, Marnan estava amarrado em um tronco no meio da jaula com uma adaga cravada em seu peito.

O povo olhava surpreso, e um grande burburinho corria entre as pessoas querendo saber quem poderia ter feito aquilo.

Fhaonna então reapareceu, e quando indagada de por onde havia andado, disse que havia ido ao ferreiro para afiar suas armas, e que não sentia pena de como as coisas haviam acabado para Marnan.

Saímos da Marus no início da tarde, em direção a Adom, visto que ainda faltavam muitos dias de caminhada e deveríamos nos apressar antes que o grande inverno nos atingisse dificultando nossa viagem.

Ao final do segundo dia de viagem, montamos nosso acampamento ao pé de um grande carvalho ao lado da estrada, e como em muitas outras vezes eu e Fhaonna dividimos o primeiro turno de vigia.

– Fletcher! – disse Fhaonna cortando o silêncio da fria noite. – Acredita que podemos fazer justiça, independente da forma que ela assuma?

– O que quer dizer Fhaonna?

– Fui eu que matei Marnan antes do enforcamento. Aproveitei enquanto os guardas estavam distraídos, e entrei na cela da carroça.

Confesso que essa declaração não me parecia estranha, pois havia visto à reação de Fhaonna a atitude de Marnan. E ela continuou falando:

– Marnan somente me olhou em silêncio enquanto pegava minha adaga e como se soubesse o que ia lhe acontecer naquele momento, a única reação do mesmo foi me agradecer por liberá-lo do peso da traição feita a nós, após tanto tempo de confiança depositada no mesmo. Confesso que após ouvir essas palavras e golpeá-lo, não me senti tão aliviada quanto achei que ficaria. Parece que ele não esperava outra reação senão essa de minha parte.

Inicialmente não sabia o que dizer a Fhaonna, pela delicadeza da situação, mas busquei algumas poucas palavras para tentar acalmá-la:

– Fhaonna, acredito que Marnan se arrependeu do que fez, e ficou feliz por ter sido libertado por suas mãos, seja de uma forma ou de outra.

– É, também acredito no mesmo.

E assim o assunto Marnan se encerrou nesse grupo, junto com o cair frio da noite, e que com certeza ensinou a todos a escolher e observar bem melhor seus companheiros de jornada.