Cenários pós-apocalípticos (parte III): A vastidão

O gênero pós-apocalíptico possui diversos elementos que o tornam único. Discutimos um pouco sobre estes elementos na primeira parte da série.

Mas hoje vamos reforçar os elementos que tornam um mundo devastado algo extremamente hostil.

Além disso, vamos descrever algumas tramas que podem ser utilizadas pelo mestre de jogos em suas aventuras. Por fim, que tal sair um pouco do clichê do gênero e buscar fontes alternativas de inspiração?

“ENTÃO VOCÊ DECIDIU EXPLORAR A VASTIDÃO…” 

Um guia prático para exploração da vastidão devastada, escrito por Islas Abadir

Quando você precisa sobreviver, muitas vezes é preciso abrir mão da dignidade, sabe? Nestes anos todos que caminhei por esta terra maldita vi pessoas com as mais boas das intenções e os mais nobres sentimentos se rendendo e rebaixando ao mais selvagem dos instintos do ser humano. Quase nunca isso é algo bonito de se ver. Imagino alguém que viveu nos tempos esplendorosos, antes do embate entre as nações causaram aquele acidente nuclear no Atlântico, vissem como nós regredimos, o quão animais somos.

Eu não tenho vergonha, manja? Quer dizer, se eu tentasse ser um Paladino da Justiça, como aquelas antigas revistas do Superman, eu seria certamente morto por algum mutante ou coisa parecida. Então prefiro viver assim do que morrer com honra. É como dizem, são as baratas que sobrevivem a um desastre nuclear. Tal expressão nunca foi tão apropriada.

Imagem: Piotr Andryszczak

i. dos restos urbanos

A vida numa cidade grande é muito diferente do estilo de vida de nossos avós. Mas as cidades estão lá, ou pelo menos o que restou delas. Um amontoado de concreto pode servir de abrigo. Uma casa em ruínas é artigo de luxo e normalmente pode ser visado por pessoas que podem não ter tantos escrupulos e irá obter aquela casa a qualquer custo… mesmo que seja a vida do inquilino.

Encare uma cidade devastada como uma selva, não como uma moradia. Não me sinto parte disso, é como se essas ruínas não fossem construído pelo homem. Para alguns lunáticos estas cidades eram habitadas por uma raça superior, semi-divina e agora estamos pegando as sobras. Por este motivo as comunidades maiores de pessoas procuraram refúgio em ambientes menos densos, mais amplos. Não sei se é um “inconsciente coletivo” do nosso instinto de sobrevivência ou uma profunda vergonha daquilo que nos tornamos, comparados com o que fomos.

Ah sim, além disso, os vândalos e as violentas gangues preferem o ambiente urbano. Eles procuram peças de carros de diversos locais e constroem seus veículos bizarros e barulhentos. Então, ironicamente, uma cidade em ruínas é um ambiente bem mais selvagem e o pior da humanidade vive por ali. Tome um cuidado e evite andar durante a noite por estas bandas.

ii. dos metros

Os metros me surpreenderam em vários aspectos. Um verdadeiro mundo paralelo acontece por la. Isso pode ser bom, quanto ruim. Já vi o melhor e o pior das pessoas nas estações e linhas desativadas do metro. É tudo muito conveniente, seja você do tipo “sobrevivente” quanto para gangues, assassinos e mutantes. Ora, pense bem, é um abrigo permanente contra as tempestades de chuva ácida, você até pode delimitar um quadrado no chão e chamar aquele espaço de casa. Claro que o grande problema das estações de metro é o fato de que aquilo pode se tornar extremamente populoso. Até hoje, me recordo da minha visita à Estação Sul de Decadentia, uma verdadeira cidade subterranea. As linhas enfileiravam pequenas casas e famílias moravam ali, guardadas por mecenários e um líder guerreiro rebelde. As linhas que se expandem para o Norte são relativamente inxeploradas, não sendo incomum que as pessoas tenham que defender seu território.

A Estação Sul é um exemplo extremamente organizado de algo muito semelhante àquilo que podemos chamar de sociedade. Mas ela é a exceção, pois muitas galerias subterraneas que um dia serviram para transportar milhares de pessoas nos grandes centros urbanos agora abrigam gangues da pior espécie. Verdadeiros calabouços mortais, com gangues se amontoando em atividades que fazem até este velho aqui ficar de estômago revirado.

iii. das estradas e seus mercenários

Deixando os escombros sufocantes e estações de metro para trás, um viajante iria contemplar um enorme vazio. Não existem mais aqueles carros passando nas super-rodovias, agora é tudo uma enorme trilha vazia com diversos obstáculos e perigos. Não pense que por conta de um colapso no nosso sistema monetário os bandidos deixam de cobrar pedágio para os mais fracos ou que você terá uma viagem tranquila e segura.

Ainda existem veículos motorizados e, embora seja difícil estimar quanto de combustível os postos de gasolina ainda possuem armazenas e que possam ser utilizados, existem pessoas cada vez mais empenhadas em utilizar o álcool como fonte de combustão para mover seus veículos alterados. Embora não muito comum entre as pessoas mundanas, esses veículos são importantes para líderes de comunidades intercambiarem bens de consumo, medicamentos ou qualquer coisa menos nobre que isso.

Normalmente essas viagens custam muito caro pois obrigatoriamente devem ser feitas em comboio, do contrário dificilmente chegaríamos ao nosso destino (seja la onde for) usando estas rodovias. Quando me encontrei com um mercenário das estradas pela primeira vez, a caminho de Decadentia, eu tive que fazer força para não rir: suas vestes rasgadas, trejeitos forçados e cabelo moicano me lembravam muito aquelas figuras cômicas de 100 anos atrás. Aquele punk entretanto foi uma das figuras mais perigosas que tive que lidar. Quem diria? Ele nos perseguiu e quando menos esperava seu veículo armado conseguiu atingir os pneus de um de nossos caminhões, que acabou colidindo com o que vinha atrás. Por detrás das rochas carros e motos surgiam como ratos saindo do esgoto. Eles levaram boa parte das nossas coisas e desaparecerem tão rápido quanto apareceram.

Lembre-se, novatos, não existem estradas seguras neste mundo!

iv. da vastidão

A vastidão é enorme. As cidades nunca foram bem conectadas por aqui, imagine agora. Uma coisa eu tenho que admitir, é incrível como o mundo floresce quando o homem não está presente para se intrometer. Entretanto, por mais que a maioria de nós tenha percebido a grande besteira que fizemos, não há nada que podemos fazer em relação ao que nossa destruição fez à própria natureza. Com a radiação em certas áreas, alguns animais adquiriram aspectos grotescos, bizarros e parte dessa mutação também favoreceu no aumento de predadores, por assim dizer.

Certa vez, estava em uma daquelas enrascadas que você se mete quando decide cruzar o deserto de Santa Cruz: lagartos pestilentos de tamanho anômalo atacavam meus companheiros de viagem. Não estou falando daqueles absurdos como Godzilla ou coisa assim. Mas lagartos que ficaram do tamanho de pitbulls costumam intimidar um pouco. Para piorar as escamas e couraças desses animais absorvem boa parte de um disparo feito por uma armas de calibre menor! Edyr, nosso pastor alucinado, argumenta que essas criaturas são lembretes da nossa insolência perante as criações de Deus. Eu não costumo concordar muito com pastores, mas alguém aí tem um ponto difícil de ser refutado!

Mesmo que você não se depare com nenhuma abominação radioativa, a maior Abominação do mundo, o homem, ainda é encontrado em várias partes da Vastidão. Existem os nômades. O que dizer deles? Bem, li uma vez num livro de história (ah sim, ainda temos alguns deles) que a humanidade em seus primórdios viviam desta forma. Caminhando de lá para cá, vivendo de caça, pilhagem e nunca estabelecendo moradia fixa. Esses caras são exatamente assim, só que alguns possuem trabucos que poderiam abrir um rombo na sua barriga!

Como disse, essa destruição toda requer que nossos instintos estejam em alerta. O bem e o mal da nossa natureza caminha agora num caminho estreito demais para sabermos o que é certo e o que é errado.  A destruição mostrou quem realmente somos. E a coisa não é nada bonita…

 continua na parte 4. Em breve!