Está tudo muito épico e limpinho!

Pois é, chegamos em um tempo de heróis saltando entre montanhas, destroçando gigantes colossais sem nenhum motivo aparente… tudo isso é divertido demais. Nada contra, mas no meu estilo de jogo destroçar gigantes colossais não é algo primariamente divertido. É desafiador, sufocante, desesperador e difícil.

É a premissa dos novos jogos, não por acaso: é uma tendência do mercado. No entanto, tomei a liberdade de escrever um artigo oferecendo como opção algo diferente, mais sóbrio, cruel e dramático. Quem sabe, não é justamente isso que você procura em seus jogos? Esqueça suas roupas reluzentes, armaduras coloridas e espadas de 3m de altura… as coisas andam épicas e limpinhas demais por aqui…

LotR: war in the north - Divulgação

POR UM MEDIEVAL MAIS SUJO… PORQUE SE SUJAR FAZ BEM!

Pelo menos é o que diz aquela propaganda de sabão em pó. Mas no RPG isso também é verdade! Neste artigo vamos esquecer um pouco a alta fantasia, bem comportada, “animesca” e semi-divina. Vamos falar um pouco da “ralé”, os pobres mortais. Quando foi a ultima vez que você realmente ajudou algum deles no seu universo ficcional?

Indo um pouco mais além para refletir sobre o assunto: o que é preciso para ser um herói? Levantar de manhã, com poderes no talo, ir para outro plano dimensional e enfiar porrada, blasts e magias na fuça de titãs ou ser acordado no meio da madrugada, pegar uma espada quse sem fio (devido ao uso) e partir pra cima de Orcos horrendos, fétidos e sedentos de sangue que estão marchando nos pântanos imundos prestes a alcançar a estrada que leva ao vilarejo cheio de inocentes?

O mais simples objetivo pode se tornar muito atraente quando é apresentado de maneira sóbria e as consequencias de ajudar ou cruzar os braços está ali, influenciando diretamente na vida do personagem.

Tal abordagem define muito bem gêneros mais soturnos da fantasia: a chamada Baixa Fantasia (ou Low Fantasy) e o gênero de Capa e Espada (ou Sword & Sorcery ).

TUDO É PESSOAL

Quando um escritor de aventuras cria uma série de side quests ele pode ter dois objetivos em mente: o primeiro é um pretexto para acumular um pouco mais de XPs para que simplesmente s personagens evoluam o suficiente para enfrentar a cena final da trama principal. Ou ele pode estar querendo deixar alguma oportunidade para o Mestre desenvolver algum gancho para algo maior.

As pequenas coisas são o que importam para aventureiros de baixo poder. É tudo uma questão de abordagem. A forma como algo é contado influencia diretamente em como os jogdaores que contralam o personagem vão encarar. Isto é verdade independente do nível de poder dos personagens da avenutra. Mas ela é mais intensa quando tudo o que se tem é uma espada na mão ou poucos feitiços na caixola. Mesmo as mais hack and slash das aventuras fica muito mais divertida quando parte de toda a pancadaria tem algum propósito.

Evite dar espaços a clichês, involva os jogadores no seu cenário. Isso os fará trabalhar melhor seus personagens e quando você menos perceber suas aventuras estarão calcadas dentro das metas individuais e coletivas dos personagens-jogadores.

ESTÉTICA

Vamos tratar um pouco mais do estilo de jogo de um jogo do estilo Espada & Magia. O que um jogador pode esperar de uma aventura deste gênero. E o que você, Mestre, pode propor na sua mesa de jogo?

Da minha experiência em outras mesas, o modelo de fantasia sempre foi Tolkien. Nada mais natural, dada a importância de sua obra. Além disso, considerando a linha editorial dos novos RPGs que estão no mercado, a alta fantasia deu um espaço muito grande ao alto nível, ao épico. Os personagens evoluem rápido, aquirem poderes e facilidades no caminho, que deixou de ser longo. Aliado a isso tudo a estética de jogos popularíssimos como World of Warcfraft deixaram uma marca forte da alta fantasia como um todo na mesa de jogo.

Nadando contra a correnteza, experimente um pouco de uma pequena dose de realismo fantástico. Como as coisas realmente seriam se seres humanos que somos habitassem esses mundos fantásticos?

Para começar, as coisas seriam um pouco mais decadente. É obvio que por mais que reinos abastados possuissem riquezas e palácios sultuosos a maioria da população estaria submetida a condições não muito dignas de romances de Tolkien. Não que isso fosse considerado, na idade média por exemplo, um problema social. Era o normal e o aceitável.

Quanto a paisagem, caminhem sobre planícies áridas, florestas sombrias e cidades imundas. E a vida urbana não é predominante, então entusiastas de boas aventuras urbanas terão que caminhar um bocado até chegar a próxima cidade. As estradas nunca são seguras. Saqueadores, mesmo que por mera oportunidade ou desespero estão espreitando a cada canto da estrada.

REFERÊNCIAS DE ‘CONAN, O BÁRBARO’

Ilustração: Frank Frazetta

Não posso deixar de prosseguir este artigo sem mencionar o que, para mim, é a obra máximo do Sword & Sorcery: Conan, o Bárbaro. As referências primárias do estilo que ilustra muito bem este artigo estão tanto nos contos originais de Howard (publicado em português pela Editora Conrad) quanto a famigerada revista A Espada Selvagem de Conan, em especial com a dupla Roy Thomas e John Buscema. A sobriedade, escuridão e crueza do cenário são descritos por Howard de maneira furiosa.

Suas histórias são ríspidas e violentas. Apesar disso ainda é possível ver uma dose de racionalidade nas ações de Conan. Além disso, Reis são corruptos.  Magos ardilosos e ambiciosos. Piratas não são ladrões galantes exploradores do mar, eles são saqueadores imundos e assassinos inescrupulosos.

O melhor de tudo é que o mundo hiboriano foi, em vários momentos, transposto para a mesa de jogo. Existe o mais óbvio que é o relativamente recente Conan RPG tendo como base o SRD 3e, com devidas alterações.  Outro título interessante é o GURPS Conan que apresenta a ambientação de maneira um pouco fria, mas é uma boa fonte de consulta. Mesmo assim, a obra original de Howard é a pedra fundamental da Baixa Fantasia e do Sword & Sorcery de maneira geral. Sempre que utilizei qualquer elemento proveniente do livro, mesmo como mera inspiração, os resultados na mesa foram gratificantes.

O LADO SOMBRIO DA TERRA-MÉDIA

Mesmo entre os mais tradicionais da títulos de Tolkien, o “clima pesado” da fantasia pode ser trazida à tona conforme a interpretação de quem os lê. Peter Jackson de uma forma ou outra fez isso em sua adaptação cinematográfica, mas vi muitas interpretações de colegas acerca de algumas passagens do livro que mostram algo muito mais sombrio.  A terra-média esconde as sombras em suas entranhas, e é muito claro que quando alguém cava fundo por entre as sombras sempre encontra algo ali. Exemplos são claros: da aparente excursão de um hobbit na toca de Smaug até a tentativa dos Anões de retomar Moria, tudo fica muito sombrio quando esses personagens defrontam elementos antigos, outrora esquecidos.

Ainda sobre a Terra Média, no meio de tantos produtos que os filmes geraram sobre a criação de Tolkien, não posso deixar de passar batido a proposta do RPG on line War in the North. Trata-se de um MMORPG adulto, que mostra o mais cruel e sombrio aspecto da Guerra do Anel. Confira abaixo um trailer do jogo.

Se o mesmo acontece com os aventureiros da Terra-Média, por que não os heróis da sua mesa? O desafio não depende do seu nível de poder, mas a recompensa é maior ainda quando as façanhas que nossos heróis fazem tem algum sentido terreno, próximo e relativamente realista.

É tudo uma questão de gosto e estilo. Do explícito desafio de Conan ao lado sombrio nas entrelinhas de Bilbo e da Terra Média, ambas as ambientações se tornaram únicas por trazer algo sombrio e amedrontador ao combate, guerra e violência.