A diversidade do RPG

Recentemente, a DEVIR publicou em seu site, depois de um bafafá muito divertido, que vai lançar em meados de julho a quarta edição do sistema GURPS. Isso já é meio que notícia velha. Mas o questionamento sobre a escolha desse título ainda permanece em diversas comunidades e blogs de RPG.

Por que a DEVIR resolveu escolher um título genérico, praticamente esquecido por ela mesma, justamente agora?

CADÊ A DIVERSIDADE?

Por que a DEVIR resolveu escolher um título genérico, praticamente esquecido por ela mesma, justamente agora?

Bem, não cabe a mim responder os reais motivos pela publicação. Mas acho que um dos motivos pode estar relacionado à mesma idéia que originou o blog Nereus RPG: trazer diversidade, explorar temas que não são constantes em uma mesa que se utilizam sistemas famosos e tradicionais.

De minha parte, como jogador e mestre, eu sempre acabo cansando um pouco do arroz e feijão. Eu comecei a jogar D&D (e semelhantes) há muito tempo e a fantasia medieval sempre foi o meu gênero favorito. Mas a longo prazo a coisa toda acaba saturando. Então é natural que o grupo mude o foco, eventualmente, para algo diferente. Mesmo que de forma causal, uma aventura de gêneros como ficção científica, cyberpunk são bem vindos e jogos inicialmente planejados para serem “one-shot” acabam gerando uma nova campanha, talvez até mais duradoura e interessante que a tradicional fantasia medieval.

Mas nada disso vai muito longe quando não se tem algo minimamente apropriado para encarar um gênero diferente daquele que estamos acostumados. E no Brasil, meu caro, a quantidade de títulos fora do eixo d20 estava amargando muito. Ainda não é o ideal, especialmente se compararmos com o mercado norte-americano, mas as editoras começam a mostrar caras novas, trazendo sistemas de outros gêneros e novas opções aos jogadores.

Que fique claro: a falta de diversidade não é por conta do sistema d20 em si. Embora ele tenha incitado uma onda de “sub-D&Ds” mesmo o d20 oferece opções diversas. Dessas é impossível não destacar o True20 e o Mutantes & Malfeitores (ou Mutants & Mastermind, do original em inglês).

Agora a DEVIR traz (de novo) um sistema robusto dentro do mercado dos sistemas genéricos. Talvez M&Ms por seu aspecto prático seja o principal concorrente de GURPS, mas está clara a intenção de trazer mais opções ao jogador brasileiro.

Como o mercado vai reagir a isso? Difícil dizer, mas acredito que se houver alguma reação a isso ela se dará de forma lenta: o mercado de RPG é historicamente lento, vide os motivos pelo qual a editora Abril, em pleno “boom” de 1995 largou a linha de títulos mais famosa do mundo – a resposta do consumidor é lenta demais.

Mas, analisando a longo prazo, acredito que a medida que um grupo fica experiente ele vai se cansando da zona de conforto. De repente dungeons e seres mitológicos cansam e não havendo opção para direções a seguir, o grupo abandona o hobbie. Existem aqueles também que são avessos a qualquer tipo de jogo fora da conformidade de seu sistema favorito.

A esses jogadores (cada vez mais numerosos) eu digo: experimentem jogos diferentes. Fatalmente, as boas idéias de um jogo podem ser conceitualmente aplicadas no seu sistema central. RPG é um hobbie, não um casamento. É como se você assistisse somente um único gênero de filmes. Você pode gostar, mas cedo ou tarde vai se cansar e as coisas vão ficar cada vez mais saturadas e repetitivas.

No que diz respeito ao Nereus, além do sistema da casa, sempre procuro oferecer referências genéricas: coisas fáceis de se achar que você possa usar em sua mesa. Aquele gênero esquecido pela massa pode muito bem render horas de risada em torno da mesa. Quando puder, proponha algo diferente e despretensioso, tenho certeza que no encontro seguinte o clima do grupo estará revigorado e idéias novas irão surgir com mais facilidade.

Se a diversidade é benéfica para o mercado? Eu deixo essa questão para os editores profissionais. Mas uma coisa eu afirmo: a diversidade é benéfica para a longevidade e evolução do grupo – a diversão é muito maior!