Cenários pós-apocalípticos (Parte I): O Básico


O fim do mundo sempre foi temática de vários livros e filmes. O que é pouco explorado, de fato, é o que acontece depois dos cataclismas, holocaustos nucleares e desastres ambientais. É certo que a barata vai sobreviver a tudo isso, mas como dizem também: “vaso ruim não quebra”, é provável que poucos seres humanos sobrevivam a esses desastres e a humanidade (mesmo que de maneira inexpressiva ou patética) ainda viva neste mundo.

Como isso seria? Como aproveitar isso na mesa de jogo? Quais referências e fontes existem por aí? Este artigo procura responder essas e outras respostas…

1. O FIM DO MUNDO JÁ FOI… O INFERNO É AQUI!

Cenários pós apocalípticos partem da premissa que o “fim” do mundo já foi há muito tempo e agora a humanidade se vê em condições e número para tentar fazer alguma coisa para re-estabelecer a ordem. Tanto tempo, por outro lado, fez com que pessoas se unissem para impedir que a ordem seja reestabelecida, por motivos óbvios: a vastidão sem lei torna aqueles que possuem armas verdadeiros reis.

Óbvio que cabe aos personagens escolherem seu lado nessa história toda. “Certo” e “errado” são relativos quando se trata de sobrevivência. Não se esqueça: não há conforto na vastidão, a humanidade regrediu ao primitivismo em meio a um enorme ferro velho, com tecnologias avançadas que, ironicamente, não estão ao alcance já que o próprio fornecimento de energia é precário, sendo que o seu uso se restringe a utilidades mais básicas como luz e quem sabe uma água quente.

Água? Quente, talvez, mas de longe ela estará dentro dos padrões do que hoje chamamos de potável. O número de doenças aumenta e a expectativa de vida cai e muito. Os cuidados médicos podem variar. Acredita-se que em meio à sobrevivência a medicina seria a primeira ciência a se reerguer, dada a prioridade que ela teria e todas as atenções de pessoas de boa vontade estariam ligadas a essa questão tão fundamental e importante.

2. VASTIDÕES & VIOLÊNCIA

A civilização como conhecemos se foi. Transforme as grandes cidades em escombros labirínticos, onde inimigos de diversas formas e facções espreitam pela oportunidade de conseguir qualquer coisa de quem estiver passando. Andar a noite nas “ruas” sem ter de enfrentar uma situação tensa é impossível. Os conflitos são mais comuns, especialmente em terras sem lei.

Embora cenários pós apocalípticos tenham pequenas cidades ocupadas (que aos poucos vão devolvendo um pouco de dignidade), elas se tornam cada vez mais distantes umas das outras. Os cenários típicos são aqueles focados em um período em que a humanidade apenas luta para sobreviver. Reestabelecer a ordem e algo próximo de um estilo de vida mais civilizado é apenas o segundo plano, existem coisas mais importantes como arrumar algo para comer e sobreviver até a hora do sono. Instigue nos jogadores a sensação de perigo. Para os demais, especialmente membros de gangues e mercenários, a vida alheia (e talvez deles mesmos) não vale muita coisa.

3. CLICHÊS E ELEMENTOS BÁSICOS

Assim como a fantasia medieval, o cenário pós apocalíptico apresenta alguns clichês. O mestre não precisa utilizar todos de uma vez ou seque algum deles. Mas serve como bussola para entender o que muitos jogadores esperam do cenário:

Wastelanders: gangues que brigam entre si por algo de valor. Campanhas inteiras podem ser praticamente focadas nesse tipo de relação. Personagens-jogadores seriam membros de gangues e teriam que realizar missões, enfrentar grupos rivais e sobreviver.

Esgotos & Metro: as estações de metrô são praticamente dungeons modernas nesse tipo de cenário. Segredos, riquezas, mistérios e muita coisa podre pode estar escondida ali. É o cenário ideal para aventuras hack n slash no mundo moderno. A escuridão dessas dungeons nos remete a…

Zumbis: ah claro, essa é para os fãs dos filmes de George Romero. Se algo de ruim aconteceu com a humanidade, então tal desastre poderia envolver um certo vírus que depois de sofrer uma mutação acabou por transformar as pessoas em zumbis. Cuidado seu melhor amigo pode se tornar um deles. (use as regras para dano localizado, altamente indicado :))

Radioatividade: ela está em diversos lugares. Na água, nos alimentos, oponentes e utensílios. Isso torna a procura de recursos ainda mais desafiadora.

Mutantes: havendo radioatividade, mutantes com poderes anormais podem surgir em meio aos humanos. Alguns se tornam super mutantes e cabe aos PJs escolherem seu lado da briga…

Conhecimento é poder: muito se perde em termos de conhecimentos quando algum desastre de proporções épicas assola o planeta. A busca por restaurar o conhecimento pode nortear algumas aventuras. Existe também a possibilidade de grupos especializados em restaurar um determinado tipo de conhecimento.

Poderes paralelos: dependendo do caso uma gangue ou mesmo um grupo de pessoas pode instaurar algum tipo de governo. Isso pode variar de uma simples cidade até mesmo um estado todo. Tudo depende dos recursos que o grupo em questão conseguiu arrecadar no meio da vastidão. Além disso o governo pode ser opressor e totalitário, gerando aventuras e campanhas centradas em rebeliões contra esse regime tirânico.

Religião: uma constante em cenário desse tipo é a total descrença em algo por parte da maioria das pessoas. Afinal o apocalipse já aconteceu e ninguém viu anjos caindo do céu para a salvação. Mesmo assim, pode ser que dependendo do que sobrou das escrituras, religiões exóticas inteiramente novas sejam criadas, seja isso bom ou ruim…

Comércio: a economia basicamente regride ao escambo e à troca de mercadorias sendo que a disponibilidade e utilidade de um determinado produto irá determinar o que ele vale, sempre favorecendo aquele que possui bens voltados para a sobrevivência. Um sistema monetário pode ser difícil de ser implementado, uma vez que as comunidades tendem a se tornar isoladas umas das outras. O jogo Fallout 3 sugere que tampinhas de garrafas de refrigerante irão se tornar a principal moeda corrente.

4. REFERÊNCIAS

Jogos de videogame: a série de jogos Fallout é quase que obrigatória, sendo que o terceiro título sintetiza muito bem um jogo de RPG em um cenário pós apocalípticos. Muita coisa pode ser absorvida de lá, inclusive quests e aventuras. Left 4 dead também é muito interessante se você utilizar zumbis em suas aventuras.

Filmes: O Livro de Eli, filme recente estrelando Denzel Washington e Gary Oldman é a mais nova referência do gênero, contando a trajetória de um andarilho (wastelander) com o objetivo de atravessar o país para entregar um misterioso livro para as pessoas certas. A estrutura da sociedade neste filme pode servir de inspiração para sua partida de jogo.

Mad Max clássico dos anos 80, com o até então(relativamente) desconhecido Mel Gibson, também é a referência para como as pessoas podem se tornar animalescas e uma sociedade violenta quando a coisa que mais importa é a sobrevivência.

Eu Sou a Lenda com Will Smith, baseado no livro de Richard Matheson, conta como seria se, talvez, você fosse o único homem vivo na Terra. Não que isso signifique que você não tenha más companhias…

Quanto aos zumbis, faça um favor a você mesmo: a trilogia de George Romero Night of the Dead, Dawn of the Dead e Day of the Dead são obrigatórios.

Continua na Parte 2. Essa é uma série de artigos. Para ver as demais partes veja a página de Material de Jogo