Leia e jogue… parcialmente!

Acho que a ligação entre literatura e RPG não precisa ser dita: ela é óbvia demais para alongarmos demais nos conceitos disso. Rapidamente basta ver quantos produtos oficiais existiram no mercado de RPG: Call of Cthullhu, Lords of Melniboné, Conan, Wheel of Time, Senhor dos Anéis… isso sem contar nas inúmeras adaptações extra oficiais que existem por aí aos montes.

Mas como aproveitar uma história e utilizá-la em jogo?

Bilbo e Smaug - Famosa cena d'O Hobbit

A primeira resposta que vem à mente é: vamos utilizar o livro como base para uma aventura, como se fosse uma daquelas aventuras prontas. Acredite, se você fizer isso existe a possibilidade de 99.666% de sua aventura ser uma verdadeira titica. Aliás isso é meio que certeza se você comprar e usar uma aventura pronta também, mas isso é papo para outro post.

Acredite: uma história aparentemente simples, como O Hobbit pode se tornar patética quando os jogadores já sabem exatamente o que esperar. Por mais que os jogadores interpretem seus personagens sem influenciar suas decisões por algo que os jogadores sabem mas o personagem não, a graça do jogo se perde quando se sabe exatamente o que esperar ou fazer a respeito. Portanto se você realmente dá valor ao seu tempo livre, evite esse tipo de coisa.

Se MESMO assim você quiser fazer algo parecido, escolha uma história que os jogadores não conheçam. Pode até ser legal o jogador vivenciar a aventura primeiro e depois ler a história original. Neste caso as chances do final ser ligeiramente diferente se tornam maiores. Mas, cuidado isso pode acabar arruinando a diversão do jogador quando ele for ler a história original, pois ele irá começar a ler a história já sabendo do final! …Ah Mestre, seja honesto: tirando estripolias épicas que ocorrem esporadicamente, a aventura quase sempre termina exatamente da maneira que você havia planejado. Os jogadores apenas têm a falsa sensação de liberdade, mas isso é papo para outro post também.

Então o que fazer? Se o jogador tiver lido a história primeiro o jogo é arruinado. Se ele jogar primeiro, a diversão da leitura será arruinada também? Como fazer a coisa toda funcionar e ninguém sair entediado ou irritado?

A resposta está na adaptação parcial do jogo. Você irá se aproveitar do universo criado para aquela história e até mesmo personagens importantes como NPCs, mas irá criar algo por cima que seja único, próprio do mestre. Isso exclui a variável falta de jogabilidade. Se você planejar uma aventura investigativa na mesma cidade de Tom Sawyer vai estar jogando no universo de Tom Sawyer, mesmo sabendo que muitas de suas histórias são, originalmente como foram concebidas, algo distante do que poderia (em uma primeira análise) ser aproveitada como aventuras de RPG.

Atenção quanto à isso: só porque o Mestre está criando algo seu dentro de um universo literário isso não significa que a criação em si deva ser destoante da obra. Isso vale não só para adaptações, mas o princípio é o mesmo se você utilizar um cenário de campanha de RPG publicado como Forgotten Realms, Dragonlance, etc. Seja condizente com o cenário. Procure absorver figuras de linguagem e um pouco do estilo do autor, pois são esses dois fatores que irão fazer com que os jogadores associem, inconscientemente, seu jogo ao cenário adaptado.

Outro ponto importante: utilize personagens famosos como NPCs nas horas certas. É tentador usar Gandalf logo na primeira cena. Embora isso seja possível (especialmente considerando que, neste caso, Gandalf é comumente visto no começo das histórias) faça com cuidado. Expor todos os elementos de referência logo de cara pode desnortear os jogadores do objetivo da missão e (o que é PIOR AINDA) fazer com que os personagens sejam meros espectadores de monólogos de personagens famosos e se tornem, invariavelmente, coadjuvantes ao invés de protagonistas. A regra é clara: PERSONAGENS-JOGADORES = PROTAGONISTAS; mesmo em um cenário famoso da literatura.

Procure, então, apresentar os elementos e referências conhecidas (i.e. aquilo que faz a obra famosa), aos poucos. A apresentação “progressiva” desses elementos são agradáveis surpresas para os jogadores e eles se sentem realmente dentro do cenário. A imersão gradual funciona perfeitamente e quando os jogadores menos esperarem, estarão conversando com Passolargo em uma taverna sobre os próximos passos de uma aventura sem mesmo perceber que, na verdade, estão lidando com um protagonista-chave de uma das maiores obras da fantasia medieval.

Se o Mestre tiver uma dificuldade inicial em mesclar elementos próprios e os conhecidos de maneira lógica, convincente e progressiva utilize locais e partes da história que possuam lacunas. Usando novamente Tolkien como exemplo, algum período obscuro do Silmarillion ou ainda a Quarta Era possuem poucos elementos e uma abragência maior. O Mestre pode se utilizar disso para criar algo em cima sem expor muitos elementos antes de tentar alçar vôos mais altos.

Por fim, uma adaptação bem sucedida é aquela que os Personagens-Jogadores são protagonistas de um cenário já conhecido. Quando os jogadores enxergarem aquela adaptação como parte integrante do jogo DELES próprios (ao invés do contrário) o Mestre acaba de realizar um ótimo trabalho.

Divirtam-se!