Dungeons temáticas

dragon-age-finalImagine um Mestre de Jogos mestrando um cenário de Dark Fantasy. Ele cria encontros cheios de intrigas, espalha pistas de que o Conde Arkron, o Necromante é quem impera pelo terror em um Condato já decadente. As investigações levam o grupo até uma cidadela em ruínas onde o Conde elabora seus rituais necromânticos e o primeiro monstro que encontram é… um CUBO GELATINOSO. “De novo?!?!” reclama o clérigo do grupo, cansado de ser o “band-aid” na campanha…

Tudo bem, um CUBO GELATINOSO poderia estar lá dando suas voltas em uma cidadela em ruínas, mas pensando bem, um morto-vivo (ou até um Hellhound) traria mais sentido à linha narrativa. Afinal, o grande vilão é um necromante e os jogadores já poderiam imaginar o que estar por vir mesmo colocando um simples zumbi na porta de entrada.

Colocar monstros na Dungeon pode ser muito mais divertido quando os monstros que o habitam refletem o clima da aventura. Isso traz aos jogadores uma descrição intrínsica do ambiante. Assim, descrever o próximo aposento vai se tornar mais fácil pro Mestre e mais intrigante para os jogadores.

1. CADA COISA EM SEU LUGAR

Esse artigo não vai responder perguntas clássicas do tipo “como um dragão faminto não se alimenta dos orcs e goblins da dungeon ao invés de se expor e se alimentar de humanos do meu vilarejo?”. Mas um grupo específico de monstros “combinam”. Por exemplo os já citados mortos-vivos poderiam ser os únicos habitantes de uma dungeon:

Zumbi

Esqueleto

Ghoul

Múmia

Wraiths

Mesmo buscando um pouco mais de variedade, você pode incorporar mais monstros que mesmo não pertencendo a uma determinada classe (no nosso caso undeads) combinam com o grupo principal:

Aranha Gigante

Giant Phyton

Carcass Scavenger

2. REFORÇANDO OS ESTERIÓTIPOS

Determinadas cenas, ou mesmo uma Dungeon inteira pode trazer utilidade a certas habilidades que os jogadores, por um motivo ou outro, não utilizam frequentemente. E a escolha dos monstros pode ajudar neste ponto. Isso ajuda a reforçar os esteriótipos que fizeram o jogador escolher esta ou aquela Classe/Raça.Tendo isso em mente o Clérigo se torna bem mais que um mero curandeiro em uma cidadela infestada de mortos vivos. Um ranger com predilação à globinoides se sentirá mais útil em uma fortificação de globinóides. Ladrões se tornam úteis se escondendo dos olhos de monstros alados vigiando a passagem e assim por diante.

O OPOSTO também é válido, em termos de equilíbrio: monstros que interferem nas fraquezas dos personagens podem fazer com que o grupo pense bem antes de sair brandando suas espadas e machados em seres elementais, ou aparições. Lembre-se: o Mestre não está contra os jogadores, mas a dungeon em si é um ambiente hostil e parte da diversão está em superar obstáculos. A longo prazo, apenas o combate torna a coisa repetitiva e sem sentido. Assim Dungeons “temáticas” dão uma caracterização mesmo em aventuras totalmente hack ‘n slash.

407px-Weird_Tales_May_19343. “HORROR NA FLORESTA”: UM EXEMPLO PRÁTICO DE  CONAN, O BÁRBARO

No conto “A Rainha da Costa Negra” Conan se vê em uma ilha procurando sobreviver a ameaças de um ambiente inóspito depois de se encrencar por conta da ambição de Bêlit (e sua própria) pelos tesouros que templos antigos escondem. Lá existe basicamente uma única criatura que atormenta a vida do bárbaro até quase matá-lo. A criatura era uma espécie de “gorila alado”. Pois bem, esse tipo de criatura (ou criaturas de aspecto semelhante) foi usada por Howard em diversas ocasiões em que Conan se encontrou em ambientes selvagens. Em uma alusão às “temidas” florestas tropicais, bestas com aparências de animalescas e horrendas fazem todo o sentido.

Mais do que isso, a criatura está completamente adaptada ao ambiente, o que torna a coisa ainda mais difícil. Demorou muito até que Conan e a criatura chegassem a um confronto direto: a criatura normalmente procurava andar (ou voar) à espreita e eliminar Conan com um único golpe furtivo. Imagine um cenário semelhante, onde o grupo de personagens é sabotado o tempo todo por ataques diferentes, mas pela mesma criatura!

Concluindo, quando criar a sua Dungeon não se preocupe com as implicações biológicas da presença deste ou aquele monstro (“afinal, se o Dragão comesse os Orcs da dungeon, não haveria aventura!”). Mas uma boa dungeon não é feita (somente) de encontros aleatórios ou abrir qualquer página do bestiário. Dungeons temáticas são mundos auto-contidos que podem acrescentar atmosfera ao cenário de jogo.

Créditos:

– Dragon Age, imagem promo, disponível em: http://greenronin.com/dragon_age/images/dragon-age-final.jpg

– Capa Original da Weird Tales por Margaret Brundage.

“Iniciativa 0E” é uma série de artigos que servem para enriquecer o jogo de fantasia medieval.